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I – Importância do manejo
Sem exageros, a Amazônia é uma região crucial para a humanidade. Desempenha um papel fundamental na conservação de uma enorme biodiversidade, que pode ser usada pelo homem, futuramente, na criação de novos medicamentos e curas; abriga enormes reservatórios de água doce superficial; estoca massivas quantidades de carbono que, de outra forma, se estivesse na atmosfera, contribuiria negativamente ao aquecimento global.
Entretanto, principalmente desde a construção das primeiras estradas federais na região, nas décadas de 1960-70, as florestas amazônicas têm sido destruídas a um ritmo crescente e alarmante. Na raiz deste problema, está o estabelecimento de atividades agropecuárias na região, implantadas de forma extensiva, impulsionadas pelos baixos preços da terra e por crescentes mercados na esfera nacional e internacional. A atividade madeireira desempenha um papel chave na conversão de florestas a pastos e monoculturas. Como definido por várias organizações, a exploração madeireira é a “ponta de lança” da colonização, uma vez que abre estradas até florestas anteriormente inacessíveis, devasta seus recursos – pois a exploração é feita sem o uso de técnicas adequadas para conservar as florestas –, torna-as susceptíveis ao fogo e, desta forma, ao exaurir completamente seu valor de uso, estimulam sua conversão à agropecuária.
A alternativa a esta dinâmica de ocupação da Amazônia é a priorização de iniciativas de valorização da economia da floresta. Isto inclui a produção madeireira e de produtos florestais não madeireiros (PFNMs, como são chamados, incluindo cipós, frutos, resinas, gomas, etc.), ecoturismo, pagamento por serviços ambientais e inclusão destas florestas em mecanismos de compensação pelo “desmatamento evitado”, ou seja, a remuneração pelo carbono que seria colocado na atmosfera caso estas florestas fossem desmatadas. Porém, apenas a exploração feita com técnicas adequadas pode garantir a perpetuidade desta economia baseada na floresta. São as chamadas técnicas de manejo florestal. Neste artigo, você vai conhecer em detalhes as técnicas de manejo florestal de madeira.
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II - Definições e a história do manejo florestal
Simplificadamente, manejo florestal pode
ser definido como o uso de práticas de
planejamento e princípios de conservação que visam garantir que
uma determinada floresta seja capaz de suprir, de forma contínua, um
determinado produto ou serviço. O manejo florestal já é previsto por lei, na
exploração de florestas amazônicas, desde 1965, através do Código Florestal
Brasileiro (Lei 4.771/1965, artigo
15). Entretanto, o decreto que regulamentou o uso do manejo florestal na
exploração de florestas na Bacia Amazônica apareceu apenas em 1995 (Decreto 1.282). Uma
definição legal moderna de manejo florestal pode ser vista na recentemente
sancionada Lei de Gestão de Florestas Públicas (Lei 11.284/2006), em seu
artigo 3°, inciso VI: “administração da floresta para a obtenção de benefícios
econômicos, sociais e ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentação
do ecossistema objeto do manejo e considerando-se, cumulativa ou
alternativamente, a utilização de múltiplas espécies madeireiras, de múltiplos
produtos e subprodutos não madeireiros, bem como a utilização de outros bens e
serviços de natureza florestal”.
A história do manejo florestal está intimamente ligada à história da
silvicultura e do desenvolvimento formal da ciência florestal. Embora o manejo
de florestas tenha se iniciado há vários séculos na China, foi na Europa,
principalmente Alemanha, onde os primeiros experimentos silviculturais foram
desenvolvidos para determinar qual a produção máxima que as florestas
temperadas da região poderiam suportar em um regime de manejo, no século 19.
Foi também na Europa em que as primeiras escolas de ciência e engenharia
florestal apareceram. No Brasil, as
primeiras escolas específicas da área florestal surgiram no final da década de
1960 e década de 1970. Segundo o Edson Vidal, da Escola Superior de Agricultura Luiz
de Queirós da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), na Amazônia, as
experiências silviculturais registradas mais antigas datam de 1958, na Estação
Experimental de Curuá-Una, Santarém (Pará). Outros experimentos de manejo
florestal foram feitos em áreas experimentais nas décadas de 1960-70, liderados
por organizações de pesquisa como a Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (Embrapa) e o Instituto Nacional de Pesquisas
Amazônicas (Inpa). As técnicas para realizar a exploração madeireira
com o menor impacto sobre a floresta, comumente denominadas de práticas de Exploração de Impacto Reduzido (EIR),
continuaram a se desenvolver nas décadas de 1980-1990. |
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III - No que consiste o manejo florestal
Antes de apresentar as técnicas do bom manejo
florestal, faremos uma rápida descrição da maneira como é feita a chamada exploração convencional. A exploração
convencional se destaca por não conter nenhum tipo de planejamento prévio à
extração de madeira na floresta, aumentando danos à mesma e desperdícios
durante a extração. Neste tipo de exploração, infelizmente ainda predominante
da Amazônia (uma estimativa de 2004 registra que 95% da produção de madeira da região foi gerada pela exploração convencional
e desmatamento), após a construção das estradas principais e
secundárias dentro da floresta, as árvores são localizadas por motosserristas e
cortadas, sem nenhuma preocupação com a direção em que as mesmas irão cair –
seja dentro de igarapés, cujas margens são consideradas faixas de preservação
permanente, ou sobre outras árvores. Como tais profissionais comumente são
remunerados por sua produtividade, não há uma preocupação em cortar as árvores
em um ponto mais próximo ao solo ou aproveitar o máximo possível do fuste
(porção do tronco que vai da base à primeira bifurcação) da árvore, evitando
desperdícios. Os motosserristas costumam cortar todas as árvores comerciais
existentes e, desta forma, tombam até mesmo árvores ocas, que são abandonadas
na floresta. Nenhum mapa para auxiliar a encontrar as árvores cortadas na
floresta é utilizado e, desta forma, a comunicação do local onde as mesmas foram
tombadas ao tratorista que irá realizar o arraste das toras é deficiente ou
mesmo inexistente. Os tratoristas entram nas florestas, algumas vezes com
equipamentos inadequados, como tratores de esteiras (equipamentos usados para
construção de estradas, que provocam grandes danos ao solo, à vegetação
rasteira e árvores durante o arraste) e, já que foram mal comunicados sobre o
local de queda das árvores, fazem um caminho desnecessariamente longo até as
árvores, e ocasionalmente não as encontram. As toras são então arrastadas até
os chamados pátios de exploração, que são construídos arbitrariamente,
dependendo da necessidade de armazenamento de toras. Também devido à falta de
planejamento, estes pátios são comumente maiores do que precisariam ser. O resultado
é um excesso de danos e desperdícios à floresta, que demorará décadas
(eventualmente séculos) para se recuperar. Além disso, comumente, uma área
explorada de forma convencional será novamente explorada daqui a alguns anos,
assim que novas espécies de madeira passarem a ter um valor significativo no
mercado. |
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IV - E I R - Exploração de Impacto Reduzido
A tabela abaixo mostra uma escala dos aprimoramentos possíveis na exploração
florestal que podem ser feitos entre a exploração convencional e o manejo
florestal de alta qualidade técnica. Aprimoramentos podem ser aqui definidos
como a diminuição dos danos e impactos à floresta, e a melhoria da
sustentabilidade econômica e social das práticas utilizadas. Um primeiro passo
de aprimoramento a partir da exploração convencional, sob esta óptica, é a
exploração de impacto reduzido (EIR).
Comparada à exploração convencional, a EIR se destaca pelo nível de
planejamento prévio e também pela forma de execução da exploração que objetiva
o reduzir os impactos sobre a floresta. Desta forma, podemos dividir as
atividades da EIR em:
· inventário florestal e atividades
pré-exploratórias,
· exploração florestal, e
· atividades pós-exploratórias. |
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V - Inventário Florestal e Atividades Pré-exploratórias
Geralmente um ano antes da exploração, a área a
ser manejada passa por um processo de avaliação do potencial madeireiro através
de inventários amostrais. Essa informação prévia é importante para descobrir se
o projeto é economicamente viável e também para definir o ciclo de corte,
baseado na necessidade anual do empreendimento. Vale ressaltar que a legislação
brasileira (Instrução Normativa IBAMA 05/2006)
estabelece ciclos de corte diferenciados, dependendo do tipo de mecanização e
do porte do empreendimento florestal. Por exemplo, um empreendimento
empresarial de grande porte pode optar por ciclos que variam entre 25 e 35 anos. Já empreendimentos
pequenos e de baixa intensidade, como pequenos produtores rurais e comunidades,
podem ter ciclos de apenas 10 anos.
O que é o ciclo de
corte
O ciclo de corte é uma das principais bases para um bom manejo. Com ele, é
definico com que freqüência um certo talhão – ou uma parte da área florestal
total – será submetido à exploração. Por exemplo, se o ciclo for de 25 anos,
a área florestal é dividida em 25 partes de igual tamanho, e cada unidade é
explorada ao longo de um ano. Evidentemente, o primeiro lote só será
explorado pela segunda vez dentro de 25 anos, o que dá a floresta um tempo
longo para se recuperar da exploração.
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Em decorrência do ciclo de corte, as dimensões das unidades de produção anual
(UPA) que fornecerão madeira para o empreendimento durante um ano (ou uma
safra) são definidas. Nessa UPA será realizado um segundo inventário, desta vez
um censo florestal (chamado também de Inventário 100%), que é um levantamento
detalhado de todas as árvores comerciais dentro da área de manejo – tanto em
idade de serem abatidas ou mais jovens, que seriam aproveitadas apenas em
futuras colheitas. Este inventário inclui informações dendrométricas (altura,
DAP e qualidade do fuste), as espécies e a localização das árvores dentro da
floresta. Geralmente, durante a execução do inventário, os cipós que estão
entrelaçados nas árvores a serem exploradas são cortados. Cipós ocorrem
naturalmente e entrelaçam as copas de árvores. Sem o corte, feito pelo menos
seis meses antes da exploração – para que os cipós apodreçam até o corte – o
abate de árvores se torna em uma operação perigosa ao trabalhador e causadora
de muitos impactos a outras.
O que é o DAP
DAP é sigla de diâmetro à altura
do peito, sendo uma medida importante na área de mensuração florestal. É o
diâmetro do tronco à altura padronizada de
1,3 m. |
Com esse mapeamento, é possível identificar os
indivíduos que serão explorados, as árvores matrizes – árvores que serão
mantidas para gerar sementes e propagar espécies – e as que serão deixadas para
um próximo ciclo. O mapeamento também ajuda a demarcar as árvores que estão
dentro de Áreas de Proteção Permanente (APP) como bordas
de igarapés e rios, declives e aclives acentuados, entre outras áreas previstas
na legislação. O censo, finalmente, tem a função de auxiliar no microzoneamento
da área de manejo, que é a etapa de planejamento da locação de estradas e
infra-estrutura para a exploração, incluindo a identificação de igarapés
(perenes ou não), aclives e declives que poderão dificultar o caminhamento das
máquinas e equipamentos de arraste, veja um exemplo abaixo.
Mapa do
microzoneamento de uma área de manejo
O microzoneamento serve
para planejar a implantação da infra-estrutura de exploração, como as estradas
principais e secundárias que serão utilizadas para escoar madeira e
equipamentos, os pátios de exploração, as pontes e bueiros, a área em que será
implantado o acampamento, entre outros (Fonte: Instituto Floresta Tropical - IFT).
A última atividade pré-exploratória é a instalação de parcelas permanentes, que
são porções amostrais da área de manejo – não mais do que 1% da área manejada –
que servirão como indicadores de qualidade da exploração e serão posteriormente
medidas para que o crescimento da floresta seja monitorado. |
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VI - A exploração florestal
Nesta fase todo o investimento realizado em planejamento e em treinamento será
utilizado na colheita florestal, através do abate das árvores, arraste das
toras cortadas até pátios de estocagem, carregamento das toras em caminhões e
transporte até o destino final da madeira.
Técnicas de abate de árvores foram aperfeiçoadas ao longo dos anos para as
espécies amazônicas. Na EIR, os principais objetivos referentes ao corte são o
controle da direção de queda – o que permite que as árvores sejam tombadas em
uma direção que provoque o mínimo dano a outras árvores – e aproveitamento
máximo do volume do fuste – cortando a árvores rente ao solo e evitando árvores
ocadas, que possuem baixo aproveitamento. Para isso, foram desenvolvidas
técnicas e equipamentos que primam pela segurança do motoserrista e equipe,
além de técnicas específicas para espécies que racham com facilidade durante o
abate como a maçaranduba (Manilkara huberi) e jarana (Lecythis lurida). Como
pode ser observado na próxima tabela, a EIR apresenta uma desperdício muito
menor do que a exploração convencional durante a derruba. |
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VII - Volume de madeira desperdiçada .Comparação entre exploração convencional e com impacto reduzido
Volume
de madeira desperdiçada
Comparação
entre exploração convencional e com impacto reduzido |
(Fonte: T.
Holmes e colaboradores, 2002) |
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Fator
de desperdício no corte de árvores |
Convencional |
EIR |
Toras não
aproveitadas pela indústria |
1,97 |
0,85 |
Desperdícios
por rachaduras nas toras |
0,87 |
0,31 |
Desperdício por
corte alto |
0,28 |
0,10 |
Árvores
inutilizadas nos pátios de estocagem |
1,97 |
0,60 |
Após o abate, as árvores são destopadas (as copas são cortadas) e as toras são
arrastadas até pátios de estocagem. Os caminhos utilizados pelos equipamentos
que fazem o arraste, chamadas de trilhas de arraste, são planejadas para
otimizar a operação (menor distância, menor impacto ao solo e à floresta e
menor custo de operação). Um grande diferencial da EIR em comparação à exploração
convencional é que, na última, os operadores não sabem exatamente o local em
que as árvores foram cortadas (uma vez que não foram usados mapas detalhados),
passando várias vezes pelo mesmo local ou fazendo voltas desnecessárias dentro
da floresta, aumentando os custos e os impactos provocados pelo arraste. Visto
por cima, uma comparação visual da disposição das estradas, ramais de arraste e
pátios de estocagem entre a exploração convencional e a EIR demonstra a
superioridade da segunda em relação à quantidade de área da floresta perturbada
pela exploração florestal. O uso de equipamentos especiais, como os tratores
florestais skidder, também auxiliam a otimizar o arraste e diminuir o impacto
da operação sobre o solo da floresta e os danos às árvores e vegetação
remanescente. |
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VIII - Infra-estrutura na área manejada
Fonte: P.
Amaral e colaboradores, 1998.

Marco
Lentini e Denys Pereira
Trator
florestal skidder, que contém gancho de arraste, usado em exploração com
manejo
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Marco
Lentini e Denys Pereira
Trator
esteira que não é sugerido para o bom manejo
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Marco
Lentini e Denys Pereira
Trator
agrícola adaptado para operações de arraste
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A produtividade da EIR em relação à exploração convencional é notória. Em um
estudo conduzido no leste do Pará em uma floresta densa no município de
Paragominas (Pará), o pesquisador Tom Holmes e colaboradores encontraram que a
produtividade média (medida em metros cúbicos por hora) de uma equipe de
trabalho realizando arraste e operações
de pátio de madeira em EIR era 41%
superior à produtividade da exploração convencional.
Entretanto, a produtividade da operação de abate, conforme esperado, era
inferior, mas apenas em 9%.
Muitos empresários e profissionais do setor florestal não aderiram às técnicas
de manejo florestal porque, intuitivamente, devido ao aumento das despesas com
planejamento e treinamento de equipes, acreditam que o custo da madeira
manejada é maior. Entretanto, isto não é verdadeiro. O mesmo estudo, por
exemplo, mostra que a madeira produzida sob EIR pode ser até 30% mais barata do
que a exploração convencional. As razões para este fato foram discutidas
anteriormente: a EIR implica em menores desperdícios, maior otimização e menor
tempo de máquinas trabalhando por unidade de volume de madeira do que a
exploração convencional.
Comparação
de produtividade e custos das atividades |
Dados coletados
em sítio experimental no leste do Pará em 2002. (Fonte: Holmes e
colaboradores, 2002). |
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Atividade |
Exploração
convencional |
EIR |
Produtividade
(m³/h) |
Custo
(US$/m³) |
Produtividade
(m³/h) |
Custo
(US$/m³) |
Derruba e
traçamento |
20,46 |
0,49 |
18,65 |
0,62 |
Arraste |
22,39 |
1,99 |
31,66 |
1,24 |
Operações de
pátio |
22,39 |
2,01 |
31,66 |
1,28 |
Total |
- |
4,49 |
- |
3,14 |
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IX - Atividades Pós-Exploratórias
Após a exploração, as florestas continuam a ter seu crescimento e sua dinâmica de espécies monitorada através das parcelas permanentes, locadas durante o inventário 100%. Tais dados guiarão futuros ciclos de exploração e outras intervenções na floresta. Outras atividades pós-exploratórias, aplicadas em algumas florestas com manejo mais refinado, como as florestas certificadas, são os tratamentos silviculturais. Tais tratamentos incluem os cortes de liberação, no qual árvores não-comerciais são cortadas para que as espécies comerciais possam se desenvolver. Outro tipo de intervenção são os plantios de enriquecimento, em que mudas de espécies valiosas economicamente que possuem baixa ocorrência ou regeneração na floresta explorada são plantadas. Além destas possíveis intervenções, o manejador deverá proteger a área manejada contra invasões (caçadores, grileiros, etc.) que possam por em risco as árvores remanescentes ou provocar incêndios florestais. |
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X - O que podemos fazer para ajudar?
Algumas vezes, durante palestras ou
apresentações, nos deparamos com pessoas que não trabalham na área florestal, e
se sentem sensibilizados com os danos ambientais provocados pela exploração
convencional na Amazônia, mas, concomitantemente, sentem que nada têm a ver com
isso. Isso é verdade? Talvez estas pessoas, de fato, se recordem de ter apenas móveis e peças de madeira, em
sua moradia, oriundos de madeira de
reflorestamento, como mdf, compensados e aglomerados. Mas,
talvez, tais pessoas nunca vistoriaram o telhado de suas casas para constatar
as espécies que estão sendo utilizadas. E, talvez, caso residam em
apartamentos, nunca se perguntaram quais materiais foram usados nas fôrmas para
moldar o concreto que foram descartadas após exercer esta função.
Pesquisas inéditas conduzidas pela organização não-governamental Instituto do Homem e do Meio
Ambiente na Amazônia (Imazon) desde 1998 revelaram três importantes
fatos:
· é o mercado nacional, e não o internacional, que
exerce o papel de principal consumidor de madeira amazônica. De fato, o estado
de São Paulo é o maior consumidor mundial de madeira amazônica (1,6 milhão de
metros cúbicos em 2004).
· madeira amazônica é geralmente utilizada, no
mercado nacional, como um material barato para construção civil. Uma pesquisa
realizada no estado de São Paulo, em 2001, revelou que 60% da madeira amazônica
comercializada era utilizada como fôrmas de concreto e andaimes e na estrutura
de telhados.
· há um interesse grande dos mercados
internacionais e também os nacionais em aumentar seu consumo de produtos certificados
ou comprovadamente oriundos de áreas manejadas.
O que o consumidor pode fazer para ajudar? Primeiro, consumir madeira
certificada, ou de áreas manejadas. A segunda tarefa é um pouco mais
complicada, já que muitas vezes o fornecedor não conhece ou não pode comprovar
a origem da madeira. Certamente, entretanto, vale a pena ao menos descobrir se
a madeira é proveniente de desmatamentos ilegais. Em algumas situações e para
alguns estados da Amazônia – e há a previsão de que isto será um mecanismo
crescentemente mais disponível ao público – é possível consultar na internet,
através do Sisflora (Sistema de
Comercialização e Transporte de Produtos Florestais) uma lista das
empresas que produzem madeira manejada na Amazônia. Finalmente, se o município
em que você reside ainda não possui uma política formal de compra de produtos
madeireiros certificados ou comprovadamente manejados da Amazônia, exija que
isto seja feito. O mesmo poderia ser exigido, através de organizações da
sociedade civil, aos governos estaduais.
A Certificação Florestal
O FSC (Conselho de Manejo Florestal) é o sistema de certificação florestal independente mais disseminado do planeta,
estando presente em 75 países e
totalizando uma área de aproximadamente 87 milhões de hectares até
fevereiro de 2007. Há outras instituições que fazem trabalho semelhante, mas
com abragência menor. O FSC, estabelecido mundialmente em 1993, é o único
sistema monitorado por auditores independentes com a aplicação de princípios e
critérios universais a diferentes tipos de florestas e tipos de manejo.
Os princípios e critérios (P&C) do FSC são padrões de manejo florestal com
aplicabilidade nos diversos tipos de florestas existentes no mundo, além de
plantações e florestas parcialmente replantadas. Por terem alcance mundial, os
P&C são adaptados a condições locais de cada país ou região, através de
diretrizes regionais promovidas pelas instituições certificadoras. Os critérios
do FSC são distribuídos em 10 princípios, que por sua vez tratam dos seguintes
temas:
· obediência à legislação nacional, local e a
tratados e acordos internacionais relacionados a meio ambiente;
· respeito aos direitos de populações tradicionais
e indígenas;
· garantia dos direitos dos trabalhadores
florestais, promovendo seu bem-estar e segurança; (d) garantia da viabilidade
econômica da floresta, promovendo o uso do maior número possível de seus
produtos, garantindo benefícios sociais e ambientais;
· clareza do plano de manejo em seus objetivos de
médio e longo prazo, devendo ser revisado constantemente;
· monitoramento constante da floresta para
avaliação de possíveis impactos/benefícios das intervenções em sua estrutura;
· manutenção das chamadas florestas de alto valor
de conservação; e
· avaliação técnica, econômica e social das
plantações florestais em suas áreas de influência.
Desde o estabelecimento do FSC no Brasil em 1996, houve um aumento
significativo na área certificada, a qual atingiu 5,2 milhões de hectares em
fevereiro de 2007, sendo 1,24 milhões de hectares de florestas naturais
manejadas por empresas e comunidades madeireiras e 1,6 milhões de hectares
destinados a produtos não-madeireiros na Amazônia Brasileira. A primeira
empresa certificada em florestas naturais manejadas na Amazônia surgiu em 1997,
em Itacoatiara (AM). Tal empreendimento teve um papel demonstrativo chave em
certificação florestal até que surgisse a segunda empresa certificada na região
em 2000.
Os primeiros empreendimentos florestais comunitários certificados apenas
apareceram na região em 2002. Em
outubro de 2007 existiam na região 14 empresas e 10 comunidades certificadas
pelo FSC, onde 4 são certificadas exclusivamente para o manejo
de produtos não-madeireiros, além de 39 empreendimentos florestais localizados
majoritariamente em florestas plantadas em outras regiões brasileiras. A Terra
Indígena do Baú (MT), pertencente a uma comunidade Kayapó é a maior área
certificada para produtos não-madeireiros da Amazônia Brasileira (mais de 1,5
milhão de hectares).
Empreendimentos
florestais certificados pelo FSC na Amazônia Brasileira em outubro de 2007 |
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Tipo de
Empreendimento |
Área
Certificada (hectares) |
Número
de Empreendimentos |
Área de
florestas naturais na Amazônia |
|
Empresas
madeireiras |
1.207.740,00 |
14 |
Comunidades
florestais |
18.713,90 |
6 |
Comunidades
florestais (somente produtos não-madeireiros) |
1.565.834,00 |
4 |
Subtotal:
empreendimentos na Amazônia |
2.792.287,90 |
24 |
Plantações
florestais na Amazônia Brasileira |
450.965,91 |
4 |
Florestas
naturais certificadas fora da Amazônia |
138,00 |
2 |
Plantações
florestais certificadas fora da Amazônia |
1.792.890,46 |
39 |
Subtotal:
empreendimentos fora da Amazônia e plantações |
2.243.994,37 |
46 |
Total:
Áreas certificadas no Brasil |
5.036.282,27 |
69 |
(Fonte: FSC
Brasil, 2007). |
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